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    Data: 19/08/17  às 22:14      

Revisitando a história com Evando Freitas: Frei Vitório de Cambiasca e Frei Ângelo Maria de Lucca, os arquitetos de São Fidélis




Você, caro amigo leitor, já se perguntou onde estão os restos mortais dos fundadores da nossa cidade? Ou como o centro da nossa cidade foi planejado?
Pois é, poucas pessoas lembram ou se preocupam com a memória daqueles sem os quais nossa cidade não existiria.

Como tudo começou?

A primeira tentativa de redução dos índios da região de São Fidélis foi feita pela margem direita de quem sobe o Rio Paraíba do Sul, vindo da aldeia de Santo Antônio de Guarulhos (Campos). A missão aconteceu no ano de 1779, e foi promovida pelo capuchinho frei Fernando de Santo Antônio, missionário de origem portuguesa.Segundo Barros, o frade, ao chegar à região onde atualmente é o distrito de Ipuca, logo tentou estabelecer contato com índios puris, porém, sem sucesso. O contato e a tentativa de aldeamento dos ditos índios não ocorreram como se esperava, pois os índios não estavam acostumados com os colonizadores, sendo agressivos e rebeldes. A dita rebeldia dos índios levou frei Fernando a abandonar a missão. O local onde ele tentou fazer uma aldeia é hoje uma Igreja dedicada a São Sebastião, padroeiro do segundo distrito de São Fidélis.

A segunda tentativa

Depois da tentativa do frei Fernando com os índios puris, os índios da margem esquerda, os coroados, foram diversas vezes à vila de Campos para solicitar um sacerdote para a região por eles habitada. Não há registros que contemplem efetivamente o motivo da solicitação dos coroados em irem sempre à vila de Campos para solicitarem um sacerdote, mas acredita-se que se submeteram a tal fim para terem os colonizados ao seu lado contra os índios puris, seus principais rivais.

Observando este evento, o mestre de campo João José de Barcellos comunicou ao vice-rei do Estado, D. Luíz de Vasconcelos,que tomou as primeiras providências para que ali se erguesse uma aldeia para os indígenas. Foram incumbidos dessa missão os frades capuchinhos italianos

Frei Vitório de Cambiasca e Frei Ângelo Maria de Lucca, que chegaram às terras do atual Município de Campos, em 14 de setembro de 1781. Subiram o rio até a região chamada pelos índios à época de Gamboa, e, no dia 27 do mesmo ano, chegaram às terras da região de São Fidélis.

À época dessa ocasião, a missão de Campos estava se expandindo, subindo pela margem do Rio até um de seus afluentes o Rio Pomba, chegando assim ao interior. Mas para que essa missão desse certo, padres italianos vieram para ajudar a catequizar os índios, entre os quais estavam os fundadores de São Fidélis

Frei Victório- o “arquiteto de São Fidélis” – nasceu no vilarejo de Cambiasca perto da cidade de Pallanza na Itália, e ingressou na ordem dos capuchinhos em 1768. Veio para o Rio de Janeiro em 1778, onde foi prefeito da prefeitura apostólica para governar os missionários. Morreu no dia 01 de setembro de 1815, aos 68 anos, dos quais passou 49 no Brasil e 34 em São Fidélis. Era pintor e entendido em arquitetura e engenharia.

 Frei Ângelo nasceu em Lucca, na Itália. Ajudou Frei Victório na tarefa de construção do aldeamento de São Fidélis. Morreu de derrame em 26 de maio de 1811, depois de 32 anos em São Fidélis.

Ambos estão sepultados dentro da Igreja Matriz de São Fidélis.

As grandes contribuições dos frades para nossa cidade

Frei Ângelo e Frei Victório, além de sacerdotes, eram grandes artistas e sábios em arquitetura e engenharia, e quando chegaram à região, logo construíram uma pequena capela de sapê onde é o atual bairro Vila dos Coroados, mais especificamente onde é hoje a Igreja Batista Memorial. Não sendo um bom local, posteriormente os frades, então conduzidos pelos índios, escolheram um local melhor para iniciaram o projeto de evangelização e construção de uma nova Igreja. Assim, desceram o Rio Paraíba mais ou menos 1 km na medida atual e escolheram um novo local, onde ergueram uma nova igreja de pedra, mais resistente. Essa nova Igreja foi dedicada a Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, e existe até hoje ao lado do salão nobre do Colégio Estadual de São Fidélis.

A construção da igreja Matriz de São Fidélis

Com o crescer da vila, os missionários idealizaram uma igreja maior, pois tinham em vista a possibilidade de crescimento da missão no decorrer da exploração do açúcar na região. Então, deram início à construção da Igreja Matriz de São Fidélis. A construção da Igreja teve início em 1799 e término em 1809, sendo inaugurada neste mesmo ano.

Como os frades idealizadores já possuíam conhecimento arquitetônico provindos da própria realidade italiana resolveram construir a Igreja no estilo românica, em formato de cruz, característica da basílica de São Pedro em Roma. Assim, a igreja possui cúpula, a forma de cruz e catacumbas. A construção da referida igreja contou com a ajuda de índios, escravos emprestados por fazendeiros da região, e trabalhadores livres, que usaram na construção nada mais que pedra, cal, madeira e adobe.

Alguns grandes autores como Debret, em passagem pelo Brasil, em especial por São Fidélis, destacam a magnitude da construção, e atribuem à cúpula um valor monumental muito grandioso para época, considerando a edificação uma das igrejas mais monumentais do Brasil colonial. Devemos ressaltar que Frei Victório pintou os quatro evangelistas da  cúpula os e uma tela do altar mor (Desaparecida).

O planejamento das ruas da cidade

Os frades, além de atuarem como vigários de colonos, fazendeiros e escravos, atuavam como demandadores de recursos e terras frente às autoridades e fazendeiros, agiam como construtores de complexo urbanístico.Fundaram uma escola, planejaram as ruas do centro da cidade como era de costume nos locais de fundação de aldeias capuchinhas no Brasil, e assim deixaram um grande legado arquitetônico e urbanístico, raro nas cidades do país na época.

Construtores das primeiras edificações

Assim que chegaram à região da redução, os frades logo providenciaram a construção de casas de sapê e madeira. Como tinham conhecimento de edificação, logo procuraram materiais mais duradouros para as construções. Ergueram olarias e começaram a construir casas no local onde iriam fazer o aldeamento. Nas memórias de Frei Ângelo é clara a descrição de construções de grandes lotes de casas para fazendeiros e índios no aldeamento. Não só ganha destaque as casas, mas também as obras de abertura de estradas e obras de canalização de água.

Defesa dos indígenas

Insistentes, os catequizadores lutavam contra a escravidão indígena e a invasão das terras dos índios pelos fazendeiros da região. Mas essa é uma discussão longa, para outro momento. Alguns pesquisadores afirmam que os próprios frades escravizavam os índios, outros que eles os defendiam, mas apoiavam a escravidão dos negros. O fato é que em São Fidélis os índios fugiam muito e não gostavam de trabalhar dada a sua natureza, portanto, não houve “escravização” de indígenas pelos frades já que esses tinham liberdade de ir e vir. Houve, entretanto, o aproveitamento da mão de obra, pois os índios coroados estavam empenhados na edificação da vila.

Homenagens aos fundadores

No ano de 1940, um século depois da elevação da Aldeia a Freguesia, a câmara municipal, atendendo a anseios fidelenses, deliberou erguer em praça pública um monumento aos fundadores feito de granito e bronze. O marco está hoje perto da secretaria de Educação do município de frente para Igreja Matriz. Outra homenagem feita é a nomeação das ruas mais importantes do centro da cidade. A Rua Frei Ângelo e a Rua Frei Victório são merecidas homenagens aos mais importantes personagens de nossa história.

 Por Evando Freitas – historiador e professor

 

 

 





















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